A cidade pode curar o nosso narcisismo

Em terra de selfie, quem não vê o outro é rei. E nesse reino do “eu”, tudo é planejado, controlado, igual. Só entra no meu reino quem é igual a mim. Do muro para fora, “os outros”, aquele mundo perigoso, cheio de coisas que eu não conheço e, principalmente, cheio de gente diferente. Ah não, isso não. Melhor ficar aqui dentro mesmo, protegido pelo que eu sei e pelo que eu sou.

Você pode substituir reino por chia, por exemplo. Não, calma, volta (brincadeirinha, Bela Gil!). O reino aqui pode representar a nossa vida, a nossa casa, o nosso grupo de amigos, os lugares que a gente frequenta… e a nossa ideia de cidade. Ou de não-cidade. Sim, porque a cidade é justamente o lugar das diferenças, o espaço de todos e para todos, onde nada é igual. Muito menos previsível.

Comecei a pensar sobre isso depois de participar do seminário internacional Cidades e Territórios: Encontros e Fronteiras na Busca da Equidade. Em uma das mesas, ouvi o psicanalista Christian Dunker falar sobre os problemas da vida em condomínio e dizer que a cidade pode ser o antídoto para o nosso narcisismo. Sabe quando você ouve uma coisa e aquilo fica ecoando na sua cabeça? “A cidade é a cura para a nossa mania de querer ficar entre iguais.”

Muros e distanciamentos

Resolvi conversar sobre essa ideia com a minha mãe. E antes de achar isso infantil (o que não é, de qualquer forma), saiba que Denise Carpegiani é psicanalista e grande entusiasta das discussões sobre o ser humano. Quando falei da cidade como antídoto para o nosso narcisismo de cada dia, ela explicou que o narcisista só vê e valoriza aquilo que ele conhece. E citou Caetano Veloso: “Porque narciso acha feio o que não é espelho”.

Daí vem a eterna necessidade de ficar perto do que a gente conhece e reconhece. Mas olha só que curioso. Ao mesmo tempo, uma pessoa só se torna um indivíduo quando reconhece a diferença no outro. Ou seja, eu só sei quem eu sou quando sei quem eu não sou. OK, é cabeçudo demais, eu admito, mas vamos voltar para a cidade e para a fala do Christian Dunker que tudo vai fazer sentido.

Sua reflexão foi sobre a vida em condomínio e como ela cria uma noção de identidade exagerada e até doentia. Tudo começa com a construção, física ou imaginária, de um muro. “O muro é uma estrutura simbólica extremamente nociva, porque faz com que a gente deixe de ver o outro, e comece a fantasiar sobre ele. Quando você passa pela cancela, pelos guardas e pelas câmeras, que mensagem esse aparato de defesa produz? ‘Do lado de lá é perigoso’”, explicou.

A gente se fecha para se proteger desse outro diferente e, claro, perigoso, sem perceber que a segregação só gera mais diferença e mais violência. A distância é que é perigosa. É dela que emergem as desigualdades sociais, se pensarmos bem. E a exclusão do outro é o princípio básico da vida em condomínio.

Eu, eles e a cidade

Nesse ponto, Dunker explica que shopping centers e favelas também são condomínios. “A gente prende as pessoas aos seus lugares e posições, cria bolsões voluntários e involuntários onde só tem mais do mesmo.” Não vou nem entrar na questão das regras do condomínio, que vão ficando cada vez mais rígidas, já que as leis do “mundo real” não funcionam e não se aplicam naquele espaço monitorado, controlado e previsível.

Qual é então a solução para essa cegueira perante ao outro? Sair do condomínio e ir para a cidade. Estar em espaços públicos onde todos podem (ou deveriam poder) circular e são (ou deveriam ser) iguais perante à lei. Os parênteses estão aí porque o conceito é muito mais bonito do que a prática, mas o caminho é esse. Conexão, circulação, encontro, troca e até conflito, porque é do conflito que surge o entendimento. Tudo isso só é possível quando derrubamos os muros e encaramos o medo de não saber o que vai acontecer.

Depois de toda essa reflexão, vem minha mãe e faz um pequeno complemento: “O muro, seja ele físico ou imaginário, representa a negação. Quando você vê algo de que não gosta, faz de conta que aquilo não existe. Sabe por que as pessoas se incomodam com o mendigo na rua ou na praça? Porque ele representa a sua miséria interior, que você faz questão de manter longe da consciência.”

No fim, a cidade é esse lugar onde estamos sempre expostos: ao outro e a nós mesmos. Está aí o seu poder de cura.

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Fernanda Carpegiani

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Jornalista, paulistana, urbana e inquieta. Gosta de: ir à praia, falar sobre a vida, buscar sentido para tudo, acariciar gatos, almoçar com a família e sair com os amigos. Não gosta de: desperdício, intolerância, coisas artificiais e falta de sensibilidade.

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