Citizinvestor: crowdfunding para projetos comunitários

FAÇA VOCÊ MESMO!

Quer participar da Citizinvestor ou criar uma iniciativa semelhante em sua comunidade? Essas informações vão te dar uma ideia mais concreta de como o projeto se estrutura

Como apoiar ou fazer parte? Por enquanto apenas cidadãos norte-americanos podem contribuir com os projetos e sugerir propostas de ações para seus bairros e comunidades.

Pessoas envolvidas: A equipe conta com oito membros

Quem faz o quê: Estão à frente do negócio os fundadores Tony DeSisto, advogado e Jordan Raynor, empreendedor, além do desenvolvedor e diretor web Erik Rapprich, que também é citado como fundador. Cinco executivos fazem parte do conselho consultivo da Citizinvestor: Marci Harris, Steve Ressler, Story Bellows, Patrick Ruffini e Russell Wallace.

Há quanto tempo existe: Desde setembro de 2012

Materiais utilizados: Software desenvolvido para estruturar a plataforma

Locais de intervenção: Espaços públicos em cidades nos Estados Unidos

Passo a passo: 

  1. Desenvolvimento da plataforma de crowdfunding
  2. Contato com prefeituras para inserir projetos no site
  3. Contato com a comunidade para divulgar os projetos e pedir colaborações
  4. Desenvolvimento de uma versão customizável da plataforma para prefeituras
  5. Contato com os responsáveis de cada governo para firmar parcerias

Problema inicial: Falta de verba dos governos municipais para executar projetos, obras e programas em benefício das comunidades

Proposta: Firmar uma parceria entre cidadãos, empresas e poder público para arrecadar o valor necessário para realizar projetos

Parcerias: Governos municipais que usam a Citizinvestor, governos municipais que contratam a versão customizada Citizinvestor Connect e empresas interessadas em contribuir com os projetos

Referências: Projeto de restauração da Royal Jenkins Pool, que contou com contribuições em dinheiro de entidades comunitárias, empresas e da própria Prefeitura de Tampa, na Flórida (EUA)

Como se sustenta financeiramente: É deduzida uma taxa de administração de 8% do valor total de cada projeto, sendo que 5% fica com a Citizinvestor (os outros 3% são para taxas de cartão de crédito). Outra fonte de receita é a contratação da plataforma customizada Citizinvestor Connect por governos municipais, que pagam uma taxa de adesão e uma assinatura anual  

Quanto custa? US$ 1.000 é o custo mensal de manutenção da plataforma, que recebeu um investimento semente de US$ 150 mil em março de 2013

Dificuldade: Resistência do público e dos próprios órgãos governamentais em entender e incorporara proposta da plataforma, por ser um modelo inovador de financiamento de projetos.

Planos para o futuro:

  • Fechar parcerias com outras prefeituras para desenvolvimento da plataforma customizada Citizinvestor Connect
  • Melhorar a usabilidade e a funcionalidade da plataforma aberta, cujos recursos ainda não estão totalmente integrados como na versão customizável

 

A falta de verba para obras urbanas é um desafio para muitas prefeituras, e não só no Brasil. Em 2008, a cidade de Tampa, na Flórida (EUA), precisou fechar a Royal Jenkins Pool, uma piscina pública construída em 1928, porque não tinha fundos para manutenção. Em 2013, prefeitura, comunidade local e empresas levantaram juntas o valor necessário para restaurar o patrimônio histórico, reaberto para a população em 2014. O sucesso dessa parceria foi uma das inspirações para a criação da Citizinvestor, uma plataforma de crowdfunding e participação cívica que já ajudou a realizar mais de 60 iniciativas de governos locais nos Estados Unidos.

O objetivo do site é potencializar o alcance de modelos como o da restauração da Royal Jenkins Pool, a partir do financiamento participativo entre comunidade e poder público, e consequentemente empoderar os cidadãos a contribuir com melhorias reais para suas comunidades. O advogado Tony DeSisto conta que a ideia veio também de sua experiência como vice-presidente da comissão cidadã de orçamento de Tampa. “Eu via todas aqueles projetos super legais que a comunidade apoiava, e que eram até aprovados, mas que o governo municipal não tinha dinheiro para realizar. Foi logo depois da recessão, então os orçamentos estavam apertados”, conta Tony, que está no comitê desde 2011.

Para viabilizar essas propostas, ele se juntou ao empreendedor Jordan Raynor, um expert em usar tecnologia para resolver problemas na política. Os dois lançaram a plataforma em setembro de 2012 e em março de 2013 receberam US$ 150 mil de um investimento semente, quando um investidor aplica o capital inicial na empresa em troca de uma fração dela. Tony contou a história da Citizinvestor em uma conversa por Skype comigo e com a Carmen Guerreiro. Você pode ouvir o áudio completo abaixo, em inglês.

Parceria entre poder público e comunidade

Como em qualquer crowdfunding, as proposições só saem do papel se arrecadarem o valor total da meta, o que acontece em 60% dos casos na Citizinvestor. A diferença do financiamento coletivo convencional como Catarse e Kickstarter é que a população sugere projetos e não há recompensas para cada apoio. A contrapartida para os doadores é a concretização da ideia em si, já que todos solucionam problemas básicos da comunidade e transformam os espaços públicos.

Entre os programas financiados até agora estão grandes empreendimentos, como um parque recreativo para cachorros de 5 mil m2 em Fort Lauderdale, na Flórida, que custou mais de US$ 80 mil e mobilizou 51 pessoas, e ações mais pontuais, como a abertura de uma rua para bicicletas aos domingos durante três meses em Belmont, na Califórnia, que arrecadou pouco mais de US$ 10 mil com 97 contribuições. Teve até projeto de horta comunitária na Philadelphia, Pensilvânia – já falamos de uma iniciativa semelhante aqui no Formiga.me, a Horta das Corujas, que fica em São Paulo.

Foto: divulgação

Um dos projetos financiados pela Citizinvestor foi o Rivera Rec Center Community Garden, na Philadelphia (PA)

Hoje o site tem duas versões: uma aberta e outra que pode ser personalizada para as prefeituras. A aberta é a Citizinvestor.com, na qual entidades governamentais e seus parceiros oficiais podem inserir gratuitamente suas propostas. É embutida uma taxa de 8% no valor a ser arrecadado, sendo que 5% vai para Tony e Jordan e 3% é absorvido para as taxas de cartão de crédito.

Os cidadãos podem enviar sugestões de ações que gostariam de ver em suas comunidades na página Ideias, que funciona como um termômetro para o poder público entender as necessidades dos cidadãos e decidir quais iniciativas devem ser subsidiadas e implementadas. Existe também uma área para comentários e novidades, atualizada pelo órgão público responsável.

Recentemente, Tony e Jordan elaboraram uma versão customizável para as prefeituras, a Citizinvestor Connect. Nessa opção, o órgão público paga a taxa de adesão e uma anuidade para ter uma plataforma de crowdfunding exclusiva, com o endereço e a identidade visual personalizados. O time da Citizinvestor se encarrega do desenvolvimento desse novo website, usando como base a tecnologia da versão aberta.

Na opção customizada, a participação popular é ainda maior, uma vez que as proposições sempre partem dos cidadãos. O governo seleciona as melhores, mas é a população que vota nas que serão financiadas. Duas cidades norte-americanas já usam esse produto: New Haven, em Connecticut, onde fica a Universidade Yale, e Central Falls, em Rhode Island.

Foto: divulgação

Cidade de Belmont (CA) conseguiu recursos para fechar avenida aos domingos para lazer

Responsabilidades compartilhadas

Quando se pensa no modelo de financiamento da Citizinvestor, em que o cidadão ajuda a custear benfeitorias públicas, uma questão que vem a tona é: mas isso não é papel do poder público? Ele não deveria pagar integralmente por isso? Mais ou menos, argumenta Tony. “Os projetos que estão no nosso site não substituem a função central do governo, por isso não seriam realizadas sem o crowdfunding. Não são programas estruturais de larga escala, ou de serviços social, e sim iniciativas de bem comum que trazem melhorias adicionais para a comunidade”.

Algo que é sim responsabilidade das autoridades governamentais é a administração dos recursos captados. Ao assinar os termos de uso, os órgãos públicos proponentes se comprometem a destinar o dinheiro arrecadado para aquele determinado empreendimento, mas fora isso não tem como saber se haverá desvio ou mau uso dos recursos. Segundo Tony, os cidadãos acabam fiscalizando a execução das propostas. “É a mesma lógica de quando pagamos impostos e queremos ver os resultados desse gasto, mas nesse caso a responsabilização é ainda maior. Se eu dei meus 50 dólares para uma ação específica, vou querer acompanhar isso mais de perto.”

O conceito por trás da Citizinvestor é propor uma forma inovadora de cidadania participava, que é digital e real, e questiona algumas crenças, como a de que os políticos eleitos são os únicos responsáveis por promover melhorias no espaço urbano. Por carregar consigo uma mudança de mentalidade, o site encontra barreiras para se estabelecer. “É ainda mais complicado quando envolve o poder público, que por natureza é mais resistente a mudanças e novidades. Estamos fazendo um trabalho de educar os parceiros do governo e a própria comunidade sobre o que estamos fazendo e por que esse modelo é bom para todos”, explica Tony.

Em três anos de existência, a Citizinvestor já fez parcerias com cerca de 170 órgãos governamentais municipais dos Estados Unidos e atualmente consegue se sustentar com a renda gerada pelos projetos financiados e pelas plataformas customizadas. Um sinal de que contar com a participação da comunidade para bancar obras públicas talvez não seja tão absurdo quanto possa parecer.

Vídeo da Citizinvestor (em inglês) brinca com o trailer do seriado Parks & Recreation e mostra a protagonista Amy Poehler, vencedora do Emmy 2014, no papel de Leslie Knope, vice-diretora do Departamento de Parques de uma cidade fictícia. No trecho escolhido, Leslie fala sobre as dificuldades de orçamento para realizar projetos comunitários e o narrador explica como a Citizinvestor pode ajudar nesses casos.

 

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