Hack Town: um evento espalhado por toda a cidade

Os mais inusitados espaços da cidade viram palco de atividades culturais em eventos como o SXSW, nos EUA, e o Hack Town, no Brasil. O primeiro inspirou o segundo, mas a versão brasileira saiu de um jeito todo seu, bem mineiro e bem roots, como diz o Carlos Henrique Vilela, co-fundador do Hack Town. Este ano rola a terceira edição, de 7 a 10 de setembro, e — pausa para o “auto-merchan” — vai ter palestra do Formiga-me!

Poster da palestra do Formiga-me no Hack Town 2017.

A nossa palestra na sexta, 08/09, às 15h30, na Associação José do Patrocínio.

Conversamos com o C.H. para entender como é essa história de transformar a cidade em uma plataforma de eventos. Ele contou que o principal é entender a vocação do lugar, ter empatia com todos os grupos que compartilham os espaços e fazer uma curadoria de trajetos e experiências. Aqui vai o papo completo:

FORMIGA-ME: O Hack Town é inspirado no SXSW, certo? Como funciona esse tipo de evento?

Carlos Henrique Vilela: Sim, o Hack Town foi inspirado no South by Southwest, o SXSW. O evento existe há mais de 30 anos em Austin, no Texas (EUA). Mistura três temas centrais: tecnologia, música e cinema. São cinco dias de atividades que acontecem mais ou menos ao mesmo tempo em vários lugares diferentes. A parte de tecnologia e cinema fica principalmente dentro de salas e espaços fechados, mas no festival de música qualquer canto vira palco. Quando eu fui pela primeira vez, em 2014, vi show em igreja e até consultório de dentista. São mais de 2 mil bandas que tocam, e muitas que fazem sucesso depois são descobertas lá. A nossa inspiração vem daí.

A gente não trouxe o modelo de lá para cá e sim adaptou para a potencialidade da cidade. Santa Rita do Sapucaí tem uma pegada forte de tecnologia em função do INATEL, considerado o MIT brasileiro, e da ETE, a primeira escola de eletrônica da América Latina. É um pólo tecnológico, com mais de 150 empresas de tecnologia, e também de startups. Tem gente do mundo inteiro morando aqui. Por outro lado, tem a pegada mineira, mais roots, e uma cena de rock autoral e de arte de rua.

Então a gente pegou a dinâmica do festival de música e fez um festival de tecnologia em que qualquer lugar vira palco. Usamos a estrutura da cidade para compartilhar conteúdos sobre inovação e criatividade. Tem atividade em bares, restaurantes, praças, salas de aula, escola.

Uma das bases do Hack Town foi o movimento Cidade Criativa, Cidade Feliz, que une universidades, empresas do polo tecnológico, poder público e voluntários. Tem pouco dinheiro envolvido e muita troca de recursos. Eu fui curador em praticamente todas as edições. Desde o começo, em 2014, a gente falava de fazer um evento na linha do SXSW.

Foto do Carlos Henrique Vilela, co-fundador do Hack Town

“A gente não trouxe o modelo do SXSW para cá e sim adaptou para a potencialidade da cidade.” C.H., co-fundador do Hack Town

FMG-ME: E como é organizar um evento que usa a cidade como plataforma?

C.H.: A experiência aqui é um pouco diferente do que poderia ser feito no geral. É uma cidade pequena por opção. O foco de desenvolvimento, desde a década de 70, é fomentar o nascimento de empresas locais e trazer para cá empresas em fase inicial. Todo mundo aqui é bem aberto a coisas novas. Quando saímos para conversar com os estabelecimentos sobre o Hack Town o pessoal adorou. Todo mundo deu ideias e se engajou com a proposta.

A gente faz tudo em rede, então um dos primeiros passos é mapear eventos que já aconteceriam na cidade e trazer para o Hack Town. Isso amplia a capacidade de execução e é uma relação ganha-ganha. Fomenta o empreendedorismo criativo, os coletivos, os projetos e grupos voluntários, e traz ganhos financeiros e criativos para a cidade. Esse mapeamento ainda é feito de maneira informal e a gente acha isso importante. Manter a dinâmica de cidade no interior também na organização ajuda a manter nossos valores vivos em todas as etapas do evento.

Para pôr o evento de pé, tem a parceria com os estudantes do INATEL. Ele oferece uma rede grande de voluntários. Em 2016, foram mais ou menos 80 e para a terceira edição temos 150 voluntários. Eles são remunerados com outras moedas que não dinheiro. A gente oferece capacitações, contato com profissionais que ajudam nas definições de carreira, brindes e atividades exclusivas. Esse modelo é inspirado também no SXSW. Em Austin existe a Universidade do Texas, com um dos maiores campus dos EUA. O evento é todo colocado de pé por voluntários da universidade.

FMG-ME: Quais são os principais desafios da organização?

C.H.: O grande desafio é oferecer sempre a melhor experiência para quem vem com base em um modelo que a gente acredita. A nossa premissa é conseguir ser roots, mas ser bom. Para isso precisa trabalhar cada elemento, ter diálogo com todos os players que atuam nessa experiência e desenvolver junto, dentro do que vale a pena para eles. Não tem exploração. As parcerias geram todo tipo de ganho para os dois lados. Esses ganhos não são só financeiros, mas também criativos e sociais.

A gente também faz uma curadoria da plataforma, um design da experiência. Onde as coisas vão acontecer, onde vamos incentivar pessoal a ficar, que trajetos vamos incentivar o pessoal a fazer. Quando se trata de cidade, não é só escolher o palestrante que vai vir, é preciso fazer uma curadoria de trajeto, de ambientes. Daria para ter tudo acontecendo em uma distância muito menor, mas não, a gente quer que o pessoal passe por tal lugar, que tal atividade aconteça em tal lugar. Tudo isso é considerado para estimular o contato das pessoas com a cidade, com as outras pessoas.

FMG-ME: Como as pessoas podem participar do Hack Town além de ir no evento? Dá para propor uma atividade ou parceria?

C.H.: As pessoas podem entrar em contato e mandar um projeto que a gente avalia e discute. Ainda não é um processo automático, mas pretendemos ter um modelo em que os projetos são submetidos online e o próprio público vota. Por enquanto recebemos via Facebook e analisamos caso a caso dentro de critérios que estabelecemos para cada edição.

FMG-ME: Qual é o impacto do evento na cidade? O que muda no cotidiano, na visão e na relação das pessoas com os espaços públicos?

C.H.: Isso é muito legal, porque o INATEL já é um modelo de universidade bem diferente. Ele está no meio da cidade e é aberto para a cidade. Então os estudantes frequentam a cidade e a cidade frequenta a universidade. É diferente da maioria das universidades, em que o campus é afastado, um mundo totalmente paralelo. Mesmo assim ainda existem resistências.

O evento intensificou esse intercâmbio, principalmente nos alunos que são voluntários. Eles passaram a ter um apreço muito maior pela cidade. E a frequentar os espaços de uma forma ampla e orgânica. Isso a gente vê nas empresas também. Ao invés de ficar trabalhando no escritório ou no INATEL, as startups têm migrado para outros lugares. Teve um botequim bem mineiro, bem rústico, que recebeu palestras no último Hack Town e ficou com uma internet de alta velocidade instalada. Atendendo a sugestões, o pessoal transformou o bar em um espaço de coworking. As pessoas passaram a ver os espaços de forma diferente.

FMG-ME: O que é preciso pensar ao usar a cidade como plataforma para um evento?

C.H.: O principal é entender qual é a vocação da cidade. Como eu disse, Santa Rita é um polo de tecnologia, economia criativa, empreendedorismo, e com uma população jovem bem grande. Não é por isso que é melhor ou pior, é só um lugar que tem essas vocações e ponto. Se você vai pra Gonçalves, por exemplo, que é aqui perto, é uma cidade turística, bem roots, com cachoeiras e uma relação muito próxima com a natureza, uma cultura forte de comida orgânica. Vamos supor que o pessoal de lá quisesse fazer um evento tipo o Hack Town. Não poderia ser sobre tecnologia, empreendedorismo, porque não faz sentido.

Precisa entender qual é o valor daquele lugar. O que ele tem de singular e o que pode oferecer para o mundo. Dá para criar outras experiências, que sejam reais e ajudem a cidade a ser um lugar legal para se viver, com infraestrutura para qualidade de vida e sendo palco para as interações que as pessoas precisam.

Um ponto importante é ter empatia com os diversos segmentos da cidade. Tentar entender o que move cada um, o que vai fazer cada um deles ficar feliz com essa história toda. Apostar na relação ganha-ganha. Para que quando o evento passar, todos tenham a sensação real de que valeu a pena participar. Senão você faz uma vez e depois ninguém mais quer estar junto. Esse é um cuidado enorme que a gente tem com os voluntários e com os parceiros locais. A experiência deles é tão importante quanto a do público.

FMG-ME: O apoio de marcas e empresas é suficiente para viabilizar e rentabilizar o evento?

C.H.: A gente não montou o Hack Town para ganhar dinheiro. Os quatro co-criadores do projeto têm seus respectivos trabalhos e a primeira versão, que foi em fevereiro de 2016, começou com zero reais. Depois a gente vendeu 400 ingressos a R$ 20. Com isso, levantou verba para fazer propaganda, camiseta, sinalização e ajudar um ou outro palestrante. Na reta final, teve uma parceria com o INATEL para conseguir televisores e projetores, e com outra empresa também, sempre na base da permuta.

Depois desse primeiro teste, a gente se reuniu com uma grande multinacional em São Paulo para falar de patrocínio. Eles disseram que se a gente desistisse de Santa Rita e levasse o Hack Town para São Paulo, colocariam uma grana gigante. Era mais do que a gente jamais pensaria. Mas a gente falou que não, porque a nossa bandeira é conectar Santa Rita com o mundo e o mundo com Santa Rita. A gente ama esse lugar.

Na segunda edição, em setembro de 2016, fizemos uma parceira mais parruda com o INATEL, outra muito boa com o SEBRAE e tivemos alguns patrocinadores locais. Vieram 1.500 pessoas de mais de 80 cidades. Já deu mais dinheiro, mas ainda é preciso ser bem hacker e pensar soluções criativas para tudo. A gente não aluga um restaurante para colocar palestras, mas vai atrás do que é importante para o dono do restaurante, que outras moedas podem ser usadas.
Isso vale pra tudo e tem a ver com a empatia que eu falei. Entender o que move as pessoas e faz elas ficarem felizes e satisfeitas. Se fosse dinheiro por dinheiro, a gente tinha tirado o evento daqui e ido para São Paulo. Quando tem propósito de verdade e o trabalho é colaborativo, as coisas ficam mais fáceis. Esse é o nosso combustível, na verdade.

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