Horta das Corujas: trazer o campo para a metrópole

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FAÇA VOCÊ MESMO!

Quer fazer parte da Horta das Corujas ou criar uma iniciativa semelhante em sua comunidade? Essas informações vão te dar uma ideia mais concreta de como o projeto se estrutura

Como apoiar ou fazer parte? A horta é aberta a todos. Os mutirões e encontros são organizados pelo grupo do Facebook.

Pessoas envolvidas: É uma rede livre de voluntários, então não há número certo de participantes.

Quem faz o quê: Cada um faz o trabalho que quiser quando quiser. Os voluntários podem regar, cuidar de canteiros, buscar esterco para adubar, fazer plaquinhas, doar mudas, colher ou apenas visitar a horta.

Há quanto tempo existe: Desde julho de 2012

Materiais utilizados: Composto orgânico, enxadas, regadores e ferramentas de jardinagem.

Metodologia: Agroecologia

Locais de intervenção: Horta das Corujas, na Praça das Corujas: Av. das Corujas, 39 – Sumarezinho, São Paulo – SP

Serviços contratados: Nenhum

Passo a passo:

  • Contar com o apoio da Subprefeitura para cercar a área destinada à horta
  • Plantar e cultivar hortaliças e outras plantas alimentícias
  • Criar uma escala de rega e manutenção de canteiros
  • Mobilizar voluntários para participar de mutirões e cuidar da horta

Problema inicial: impacto ambiental do consumo de produtos industrializados e produzidos em larga em escala

Proposta: O desejo de praticar a agricultura urbana comunitária em São Paulo

Parcerias: apoio da Subprefeitura de Pinheiros

Como se sustenta financeiramente: Não é necessário investimento financeiro. As pequenas despesas são rachadas entre os voluntários

Quanto custa? Não há custo estimado

Dificuldades: roubo de mudas e falta de voluntários para regar e fazer a manutenção da horta

Planos para o futuro:

  • Mobilizar mais pessoas para cuidar da horta
  • Servir de inspiração para o surgimento de mais hortas comunitárias

 

A poucos metros da moderninha Vila Madalena, em São Paulo, existe uma roça urbana, povoada por borboletas e abelhas, com plantas dos mais variados tipos, de berinjela a almeirão. A Horta das Corujas fica escondida em uma rua bem arborizada no bairro Vila Beatriz, em frente a um córrego, e foi uma das primeiras hortas comunitárias de São Paulo.

A semente desse movimento foi plantada no grupo de Facebook Hortelões Urbanos, criado em 2011 pelas jornalistas Tatiana Achcar e Claudia Visoni para trocar informações sobre o plantio de alimentos em casa. Um ano depois, o que era virtual e individual virou em real e comunitário. “Apareceu um menino no grupo que falou: ‘Vai ficar essa conversa, meu quintal isso, meu quintal aquilo? Vamos plantar na praça. Só que, detalhe: esse menino nunca mais apareceu. Mas a gente foi em frente”, lembra Claudia Visoni, uma das fundadoras da horta e hoje também conselheira do meio ambiente na Subprefeitura de Pinheiros.

Plantar para a cidade

Depois de fazer reuniões e tentar escrever um projeto oficial, o grupo decidiu deixar a burocracia de lado e simplesmente agir. Com um e-mail, os hortelões conseguiram a autorização da Subprefeitura de Pinheiros para começar a plantar no espaço, que foi cercado pelos técnicos do órgão público e inaugurado no dia 29 de setembro de 2012. Apesar dessa parceria, a horta não tem autorização formal para existir, e não há legislação que regulamente esse tipo de iniciativa.

Com ou sem permissão oficial, as hortaliças plantadas pelos voluntários das Corujas continuam crescendo e dando frutos até hoje. Qualquer pessoa pode colher, desde que não arranque ou danifique as mudas. “Essa também é uma forma de participar, e não precisa ter trabalhado na horta para colher. Isso é uma coisa fundamental desse projeto. A gente planta para a cidade”, explica Claudia. As poucas regras da horta incluem não roubar mudas, não plantar árvores e não entrar com cachorro.

Pouca gente põe a mão na terra de verdade

O mesmo espírito de doação que fez a horta prosperar é hoje o seu maior desafio. “Essa história de horta comunitária é um ponto de inflexão na nossa sociedade, no nosso estilo de vida. As pessoas têm muita facilidade de trabalhar na frente de um computador. Já teve gente querendo fazer mapeamento, oferecer logotipo. Agora, o que é mais simples, que é ir lá e regar, é muito difícil conseguir alguém.”

Dinheiro não é problema nem solução para os hortelões das Corujas. Eles produzem adubo no local, fazem vaquinha quando precisam comprar material e preparam as mudas em casa. O que falta mesmo é a moeda tempo. “As pessoas imaginam que cuidar de uma horta é ir lá e plantar, que é a coisa mais fácil e mais rápida. Mas é que nem ter filho. Uma coisa é parir, que é ir lá e fazer o canteiro, plantar uma muda. Outra coisa é cuidar”.

O trabalho na horta é muito mais prático do que qualquer outra coisa. Nada de reuniões, planejamentos extensos, ou mesmo hierarquia. “As plantas não precisam de reunião, e sim que você vá lá, tire o mato, coloque adubo, regue”. As conversas sobre a horta acontecem nos mutirões e no grupo da horta no Facebook. Lá também é possível ver a escala de rega, combinada entre os voluntários mais ativos. “O grupo tem mais de 2 mil pessoas, mas que aparece mesmo são uns 10”.

Claudia Visoni ao lado de outras três fundadoras da Horta das Corujas nos primeiros dias de plantio

Claudia Visoni ao lado de outras três fundadoras da Horta das Corujas nos primeiros dias de plantio

O que a horta ensina

Quem passa pela Horta das Corujas hoje nem imagina que aquela enorme área verde tinha o solo árido e era a menos frequentada da praça. A ocupação melhorou a qualidade da terra, regenerou as nascentes do local – hoje usadas para rega – e se transformou em um espaço de educação e preservação da biodiversidade vegetal, que conta até com um apiário. É comum receber visitas de escolas e estudantes de toda a cidade.

Claudia compara o aprendizado na horta com a experiência de um surfista, que “não molda a onda, tem que aprender a surfar a onda que vem.” Quando começou a plantar, ainda em casa, em 2008, Claudia imaginava uma horta ideal cheia de tomates. “Eu descobri que a nossa sociedade tem esse vício de achar que manda na natureza, e a gente não manda nada. Inclusive tomate é o que eu menos consigo produzir. Aprendi na prática como agir, recebendo feedback direto da própria planta”.

O jogo de cintura necessário para surfar a natureza também se aplica à relação com o ser humano. Até hoje, todos os pés de alecrim que foram plantados sumiram, e o roubo de mudas é um problema tão recorrente que os voluntários colaram um aviso na placa de entrada da horta.

O plano daqui para frente é conseguir envolver ainda mais a comunidade do entorno. Mas o verdadeiro sonho de Claudia é ver a cidade se transformar em uma grande horta. Para incentivar esse movimento, os Hortelões Urbanos criaram uma cartilha com 10 passos para fazer uma horta comunitária. “A agricultura urbana é uma coisa muito descentralizada, autônoma, de empoderar as comunidades, então o máximo que a gente pode fazer é servir de exemplo e inspiração”.

 

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