Imargem: arte urbana, meio ambiente e direito à cidade

FAÇA VOCÊ MESMO!

Quer fazer parte do Imargem ou criar uma iniciativa semelhante em sua comunidade? Essas informações vão te dar uma ideia mais concreta de como o projeto se estrutura

Como apoiar ou fazer parte? Alguns eventos e ações do projeto são abertos ao público. Para saber a agenda, é só acompanhar a página no Imargem no Facebook

Pessoas envolvidas: 7 pessoas na gestão e cerca de 20 para execução de atividades, entre artistas, educadores e produtores

Quem faz o quê: O organograma não é muito bem definido, mas conta com:
Carol Pires – Produção Executiva e Comunicação
Gabs Leal – Captação de Recursos
Mauro – Artista idealizador do Imargem
Tim– Arte-educador e idealizador do Imargem
Jaison Lara – Produção e articulação
Vanilson Fifo – Produção
Mariana Belmont – Apoio de articulação

Há quanto tempo existe: Desde 2006

Materiais utilizados: Sprays, rolos, galões de tinta, fita crepe, criatividade…

Metodologias: Para a produção dos Murais é utilizado o processo de “auscuta”, para ouvir e entender o ambiente, as pessoas, e criar a arte

Locais de intervenção:
Pinacoteca do Estado de São Paulo
Autódromo de Interlagos
Passarela Aeroporto de Congonhas
Grajaú
Parque Residencial Cocaia
Vale do Anhangabaú
Parque Ibirapuera
Brasilândia
Aricanduva
Praça Kantuta
Escolas

Serviços contratados: Artistas e educadores com foco em permacultural e sustentabilidade

Passo a passo:

Para fazer um Mural Memória

  1. Identificação do espaço/muro no bairro onde será contada a história;
  2. Articulação com os moradores locais para entender e conhecer melhor a história do lugar;
  3. Articulação com o poder público para autorização de intervenção no espaço/muro;
  4. Seleção dos artistas que irão reproduzir a história no mural;
  5. Organização das ideias para criação do roteiro;
  6. Compra de material de pintura;
  7. Execução do painel.

Parcerias: Associação Proscience, Casa Ecoativa, Meninos da Billings, Fórum de Cultura Grajaú, Ateliê Daki, Subprefeituras, Secretarias Municipais de Cultura e Direitos Humanos, Virada Sustentável

Como se sustenta financeiramente: Por meio de editais, patrocínios e parcerias em projetos específicos. Não há aporte de verba mensal.

Quanto custa? Não atua com custos de manutenção ainda, e sim por projetos apoiados

Planos para o futuro:

  • Conquistar a sustentabilidade do projeto para execução de atividades mensais;
  • Conseguir manter o ateliê damargem em funcionamento diariamente.

Grajaú, extremo sul do município de São Paulo. No distrito mais populoso e com a menor taxa de desenvolvimento da cidade, bem onde a metrópole se choca com a Mata Atlântica, um grupo de artistas usa a arte para discutir o direito à cidade e a democratização da própria arte. O coletivo Imargem surgiu há 10 anos nas bordas da represa Billings, uma das maiores do mundo em área urbana, com a proposta de fazer murais, esculturas, oficinas, eventos e debates para discutir arte, meio ambiente e a convivência nos espaços públicos.

O nome Imargem é a junção das palavras imagem e margem, mas também propõe uma reflexão sobre a marginalidade. “Ser marginal não é a mesma coisa de ser criminal”, lembra o arte-educador Welington Neri, o Tim, um dos idealizadores da iniciativa. “Inclusive há quem diga que a revolução vai vir das bordas. A cicatrização da ferida vem a partir das bordas. Milton Santos [premiado geógrafo brasileiro, já falecido] falava isso.”

Da margem ao centro

Para além dos desafios e preconceitos que envolvem a vida nas margens – da represa e da cidade -, o olhar das periferias sobre os problemas urbanos consegue ser abrangente e cuidadoso. “Quem tá à margem vai ao centro, nas suas relações de trabalho e de articulação com a cidade, mas quem tá no centro não necessariamente vai à margem. E esse trajeto é longo, então você vê muita coisa, encontra pessoas. E no nosso caso específico, que lida com arte urbana, a cidade é plataforma, né?”

A relação estreita com os espaços públicos traz a arte como instrumento de expressão política e transformação social. “A gente não se abstém de discutir direitos. Os direitos de quarta geração [presentes na Constituição Federal Brasileira], de se ter um ar puro, uma água limpa, uma mata protegida. O direito aos acessos. E na rua você vai descobrindo como a nossa cidade é perversa. Como foi feita de uma forma pesada, dura. Burra também, né? Por exemplo, soterrar nossos rios para fazer avenidas é uma coisa meio absurda.”

E por falar em rios soterrados, clica aqui para ler a nossa reportagem sobre a iniciativa Rios e Ruas

Toda a produção cultural do Imargem se apoia na relação das pessoas com o meio ambiente, seja ele a natureza, a cidade ou as fronteiras entre uma e outra. “Isso é um lugar da arte: estar sensível às pessoas e ao lugar, e a partir disso construir novas narrativas, perspectivas e horizontes.” Outra inspiração é a cultura hip hop. “Mas não daquele enlatado americano. O hip hop brasileiro mesmo. E o Grajaú consegue ainda dar uma versão mais…. mais Grajaú”, define Tim.

Além das intervenções nas ruas, a iniciativa faz também murais mapa e murais memória, que ajudam a situar o espaço e o tempo de cada lugar, passeios turísticos pela cidade, eventos e articulações em escolas e curadorias, chamadas por eles de “cuidadoria de conhecimento”, além de exposições em espaços abertos e de galerias.

Uma das maiores e mais emblemáticas é a Cartografitti, coordenada pelo artista Mauro, um dos idealizadores do Imargem, e realizada em parceria com os artistas do próprio coletivo. Com apoio do edital Arte na Cidade, da Secretaria de Cultura do Meio Ambiente, foram feitas intervenções artísticas em 21 pontos de São Paulo para investigar e escancarar as contradições da cidade.

Um extenso congestionamento foi grafitado no muro do Autódromo de Interlagos, ao lado de um cadeirante vestido em um macacão vermelho (em alusão à Ferrari, famosa escuderia de Fórmula 1). Já na região da Luz, no centro, o grafitti de uma moça vestida de noiva fumando se confunde com os consumidores de crack que habitam a região, onde fica a Rua das Noivas. O Largo da Batata, em Pinheiros, e o Parque do Ibirapuera também fizeram parte da exposição a céu aberto.

Ao longo desse trabalho, foram surgindo novas discussões sobre o direito à cidade e legalidade da arte urbana. “A lei diz que a gente não pode fazer sem autorização do dono, mas se a cidade é de todos e a gente vive numa democracia, do muro da sua casa para fora pertence a todos.” Algumas intervenções foram proibidas. “Teve lugar que disseram ‘não’, mas ninguém era o dono, então não tinha problema nenhum fazer. Mas a gente foi respeitando e, no final, forrou um painel só com autorizações.”

Arte, economia e sustentabilidade

O Imargem começou em 2006, quando o artista e educador Mauro Neri chamou amigos com diferentes tipos de trabalhos culturais para inscrever um projeto de arte urbana no Programa de Ação Cultural, o ProAC. “A ideia era fazer esculturas às margens da represa com material recolhido, com artistas que mais tarde a gente veio carinhosamente a apelidar de agentes marginais, que agem a partir da margem exercendo um papel relevante na produção cultural e na relação com as pessoas”, lembra Tim.

A proposta foi aprovada e em 2007 os agentes marginais produziram e instalaram as obras de arte em volta da represa. Também fizeram oficinas dentro da comunidade e murais de grafite pela região. As intervenções, que antes eram pontuais e individuais, se transformaram em uma grande mobilização artística e comunitária em torno de temas como a arte, a questão ambiental e a relação das pessoas com o espaço, os três eixos norteadores do projeto desde então.

Em 2008, já como Imargem, o grupo se inscreveu no Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais, o VAI, da Prefeitura de São Paulo. Com o incentivo aprovado, os agentes marginais produziram objetos de arte que relacionavam arte e meio ambiente, como as lixeiras-obras, que usavam a arte para chamar a atenção das pessoas para o lixo, e as caixas de diálogo alimentadas por energia eólica, que reproduziam frases como “preserve o meio ambiente” e “cuide do lixo”.

Desde então, os maiores desafios do Imargem são dar visibilidade e sustentabilidade para a arte urbana marginal. “O artista parece que briga com essa questão do capital, e não dá para ser assim. A gente precisa sobreviver, ser valorizado e se valorizar também”, diz Tim.

Hoje, o projeto é financiado por parcerias e editais, e nas oficinas do ateliê damargem os alunos aprendem a pensar em estratégias para viver da sua arte. “A gente tem que falar e se empoderar da economia, de como dar sustentabilidade para as ações para além desse lado romântico e bonito que todo mundo vê. Pensar em como escoar o trabalho, quem é o público”. Isso porque quando o artista consegue viver da sua arte, também ajuda a consolidar o espaço da produção cultural na cidade e no mercado.

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