Jim Bachor: a arte de “consertar” buracos de rua com mosaicos

 

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Quer interagir com o Jim ou criar uma iniciativa semelhante em sua comunidade? Essas informações vão te dar uma ideia mais concreta de como o projeto se estrutura

Como apoiar ou fazer parte? Voluntários são bem-vindos nas instalações (mande um email para jim@bachor.com). Você pode também chamar o artista para a sua cidade. Outra opção é ajudar a financiar o projeto ao comprar camisetas e cartazes com a arte de mosaicos de Jim no site www.bachor.com

Pessoas envolvidas: Apenas o artista

Quem faz o quê: O Jim cria o conceito da arte, produz os mosaicos, procura os buracos nas ruas, instala as peças, documenta fotograficamente e promove o trabalho nas redes sociais

Há quanto tempo existe: Desde maio de 2013. Os mosaicos só podem ser instalados de abril a outubro em Chicago, por causa do clima.

Materiais utilizados: Smalti (vidro) de Murano (Itália), mármore, argila, morim (pano usado para fazer queijos), tábuas de compensado, cola branca, lápis, papel vegetal, lona, notebook

Metodologias: Arte de mosaico

Locais de intervenção: Principalmente Chicago, Estados Unidos (6 peças foram instaladas na Finlândia)

Serviços contratados: Nenhum

Passo a passo:

  1. Levantar recursos com campanha de financiamento coletivo
  2. Criar conceito da arte e juntar materiais
  3. Fazer o mosaico no estúdio
  4. Procurar o buraco na rua com as melhores condições de instalação
  5. Instalar a peça no asfalto
  6. Fazer divulgação nas redes sociais

Problema inicial: Buraco na rua em frente à casa do artista

Proposta: Cobrir os “potholes” com um mosaico de algo que a maioria goste (flores, sorvetes etc.)

Parcerias: Nenhuma

Referências: Mosaicos antigos (de 2.000 anos atrás) na Europa que sobreviveram à ação do tempo

Como se sustenta financeiramente: Até janeiro de 2015, o artista arcava com todos os custos. Desde o início do ano, os mosaicos são financiados com o dinheiro arrecadado via crowdfunding

Quanto custa? De US$ 75 a US$ 100 (cada mosaico e instalação)

Dificuldade: Encontrar o buraco ideal para instalar a arte

Planos para o futuro:

  • Entrar em contato com prefeituras de todo o mundo oferecendo a instalação dos mosaicos em buracos no asfalto
  • Editar um livro de arte com fotografias dos trabalhos feitos

 

Em um verão americano de 2013, Jim Bachor se deparou com um problema urbano dos mais comuns: havia um buraco na rua em frente à sua casa. O artista, morador de Chicago, em Illinois (EUA), vinha se dedicando exclusivamente à arte em mosaicos há um tempo, e teve uma ideia: e se ele cobrisse aquele buraco com a sua arte?

Ele nos contou (em conversa comigo e com a Fernanda Carpegiani, que você confere abaixo no áudio original, em inglês) que a intenção foi contrastar algo universalmente odiado – buracos na rua –, com algo universalmente amado. A primeira fissura foi coberta com um desenho da bandeira de Chicago e a palavra “pothole” (inglês para “buraco no asfalto”) no meio. Depois disso, adotando o princípio do contraste, ele passou a fazer mosaicos de flores – e mais tarde de sorvetes – para espalhar por outras ruas acidentadas da cidade.

 

O caçador de asfalto rachado

No início, Jim não tinha certeza se o que estava fazendo era ilegal e, pelo fato de ter sido comissionado para fazer um mosaico em uma estação de metrô da cidade, tinha medo que pudesse ter problemas com a prefeitura. Apesar da sua vontade de permanecer incógnito, um amigo do artista entrou em contato no começo de 2014 com uma emissora de televisão local. A pauta sobre o cidadão de Chicago que estava tampando buracos das ruas da cidade com mosaicos ganhou de imediato os jornalistas.

Não demorou muito para que Jim se tornasse uma pequena celebridade. Sua arte de asfalto caiu na internet e rapidamente ganhou o mundo.

A pólvora para viralizar seu trabalho foi a criatividade ao solucionar – embora não em larga escala ou de maneira permanente – um pequeno problema urbano com o qual a maior parte das pessoas que mora em cidades lida no cotidiano. Apesar disso, Jim afirma que não faz os mosaicos como uma crítica ao governo. “As pessoas sempre me perguntam se eu sou um rebelde, mas, para ser honesto, a prefeitura está em uma posição difícil, porque não existe uma boa solução para esse problema. Concreto é muito caro, nunca vai substituir o asfalto”, problematiza.

A iniciativa, segundo ele, tem mais a ver com seu senso de humor e a vontade de colocar um sorriso inesperado no rosto de alguém a partir do contraste do problema – o buraco – com a solução – a arte.

Mesmo sem a intenção de confrontar, Jim temia ter problemas com a polícia durante a instalação de um mosaico – que demora de duas a três horas –, mas isso nunca aconteceu. “Quando faço uma instalação, uso cones industriais e colete de segurança laranja, então pareço um técnico da prefeitura. Para quem olha de fora, é uma pessoa trabalhando demais em um buraco na rua.”

O processo de cobrir buracos com mosaicos

Esse trabalho começa no estúdio, quando Jim prepara os mosaicos: primeiro desenrola uma fina camada de argila, depois posiciona os pedaços de vidro e, por fim, cobre a peça com um morim (pano usado para fazer queijos) e cola, deixando secar por dois dias. Ele então leva a arte pronta para a rua, onde faz a instalação (você ouve mais detalhes desse processo no podcast).

A ação é não apenas trabalhosa, como também custosa. Jim afirma que pagava do próprio bolso de 75 a 100 dólares para cada trabalho de mosaico nos potholes. Para cobrir esses custos, no início de 2015 ele decidiu criar uma campanha de financiamento coletivo com a meta de arrecadar 300 dólares para fazer mais três obras – a iniciativa surpreendeu, ao levantar 4.600 dólares.

É difícil encontrar o tipo certo de buraco

Com essa renda, Jim tem recursos para fazer dezenas de mosaicos. Mas a dificuldade financeira não é seu principal obstáculo. Segundo o artista, encontrar o tipo certo de buraco para sua arte é algo que toma algum tempo. “Isso soa esquisito, mas tem mais ou menos 10 características que essas coisas precisam para dar certo, como não ser no meio da rua e ter um tamanho ideal”, explica.

Além disso, existe o “risco” do recapeamento. Por isso, ele procura ruas que não tenham seu asfalto muito danificado – sinal de que serão reformadas logo. Ao mesmo tempo, o artista gostaria de fazer as instalações mais próximas ao centro, para chamar mais a atenção das pessoas. O problema, segundo ele, é que bairros centrais e valorizados têm suas ruas recapeadas com maior frequência, o que tornaria sua arte muito efêmera.

Mosaicos são duráveis – ruas, não

Não fosse pelo recapeamento e fluxo de veículos, os mosaicos de Jim durariam muito tempo – séculos. Parte do que fez o artista se interessar por esse tipo de arte foi visitar sítios históricos na Europa e observar como os antigos ladrilhos não só sobrevivem muito mais tempo do que afrescos, mas às vezes mais do que as próprias edificações.

“É claro que meus trabalhos de arte que estão na parede têm o potencial para durar para sempre, porque um caminhão não vai passar por cima deles”, brinca. “Se o asfalto começa a quebrar em volta do mosaico, isso expõe os cantos da arte e ela começa a deteriorar.”

Quando isso acontecia, Jim conta que ficava chateado. Mas sua atitude mudou quando ele passou a considerar que uma boa documentação da arte poderia preservá-la. “Eu trabalho na rua. Quando fica pronto, eu tiro um monte de fotos, e o que acontecer depois disso, aconteceu.” O artista vende cartazes com essas fotografias pelo seu site, e também planeja montar um livro.

A conquista de novos chãos

Os mosaicos de asfalto de Jim não só mudaram os rumos da sua carreira, como já lhe renderam convites inusitados. No ano passado, a cidade finlandesa de Jyväskylä o convidou para atravessar o Atlântico e instalar algumas de suas peças em lugares estratégicos da cidade, como em frente ao seu museu de arte (veja abaixo as fotos da experiência). A partir dessa ideia, o americano quer entrar em contato com prefeituras do mundo inteiro e se oferecer para cobrir alguns dos seus buracos na rua com a arte de mosaicos.

Outro reconhecimento de seu trabalho foi a solicitação da gigante esportiva Nike para uma reforma de sua loja na Niketown, em Chicago. A empresa buscava um artista local relevante para deixar sua marca, e encomendou uma peça de 1,2 X 1,8 metros para instalar no chão da loja principal.

Esses convites ajudaram a viralizar os mosaicos de Jim pela internet por todo o mundo e, ao olhar para trás, ele mal acredita que tudo começou com um problema na frente da sua casa. Mesmo que a intenção original, segundo o artista, não tenha sido política, sua arte é uma intervenção urbana que se mescla (literalmente) com o espaço público. E isso é um elemento fundamental para mudar a percepção de cidade de quem passa pelo local.

 

Saiba mais No podcast no início do texto (em inglês), Jim Bachor fala sobre suas inspirações, conta como foi o começo e mostra todo o bom humor que deu origem aos mosaicos de sorvete.

 

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Sobre o autor

Carmen Guerreiro

Carmen Guerreiro

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Jornalista, escritora, paulistana, empreendedora e apaixonada por cidades. Gosta de: viajar, escrever, ouvir histórias, fotografar, aprender, ouvir música, conversar, andar pela cidade, dançar, cozinhar, comer, descobrir, pesquisar, observar. Não gosta de: egocentrismo, extremismo e injustiça (e maionese industrializada)

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