SampaPé: o movimento por trás da abertura da avenida Paulista para as pessoas

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FAÇA VOCÊ MESMO!

Quer fazer parte das ações do SampaPé ou criar uma iniciativa semelhante em sua comunidade? Essas informações vão te dar uma ideia mais concreta de como o projeto se estrutura

Como apoiar ou fazer parte? Primeiramente andando. Você também pode curtir a página do SampaPé no Facebook, participar dos passeios e levar sua intervenção urbana para um evento do projeto

Pessoas envolvidas: No início eram quatro pessoas. Hoje, Letícia toca o projeto com duas parceiras, Ana Carolina Nunes e Nara Rosetto

Quem faz o quê: Todo mundo faz de tudo um pouco, mas no geral Letícia coordena, faz passeios, cuida da criação e interlocução com o poder público e das parcerias. Ana tem foco em interlocução com poder público e comunicação. Nara em parcerias e projetos artístico-culturais

Há quanto tempo existe: Desde agosto de 2012

Materiais utilizados: Papelaria, tintas, mapas, e principalmente os pés

Metodologias: Combinação de diferentes análises de “caminhabilidade”, avaliação de espaços públicos e observação urbana

Inspirações:

  • Liga Peatonal, no México
  • Passeios a pé pelo mundo (walking tours)
  • Janes Walk
  • Walk 21
  • Everybody walks
  • PPS

Locais de intervenção: O grupo fez dois grandes eventos na praça do Pôr do Sol (Praça Coronel Custódio Fernandes Pinheiro) e praça da República, e já fez passeios nas seguintes regiões: Bixiga, Higienópolis, Ipiranga, Vila Clementino, Vila Madalena, Água Branca, Rua Augusta, Avenida Paulista, República e Penha

Serviços contratados: Contador. O resto é feito no modelo DIY (Do It Yourself, ou faça você mesmo, em português)

Passo a passo:

Para organizar um passeio a pé

  • Escolha do local, que é feita de duas formas: por votação online ou por conta de um evento ou data importante relacionada ao lugar, como por exemplo a Festa da Achiropita, no bairro do Bixiga, que foi o primeiro passeio da iniciativa
  • Faça uma pesquisa online sobre personagens e histórico do bairro, para poder explorar questões materiais e visuais da região
  • Realize então uma pesquisa in loco, com caminhadas pelo local para conversar com os chamados atores locais, que são funcionários de lojas (antigas e novas), moradores, agentes de museus e instituições culturais, pessoas na rua
  • Crie um mapa com os espaços e as histórias
  • Elabore um roteiro interessante e consistente, misturando personagens importantes para a formação e ocupação do bairro com personagens atuais que recriam a imagem e história dos bairros
  • Planeje o passeio: a média de cada um é de 15 pontos, 5 km percorridos e 3 horas de duração

Proposta: Melhorar a experiência do deslocamento a pé na cidade promovendo passeios e incentivando a criação de políticas públicas a favor dos pedestres.

Parcerias:

  • Paulista Aberta com o Minha Sampa
  • Seminário Cidades a Pé com ANTP, Banco Mundial, Rede OCARA, Corrida Amiga e Pé de Igualdade
  • Atividades com apoio da Cidadeapé
  • Caminhando com o Tatto com Bike é Legal e Página da Raquel
  • Mapa a pé entre as estações do Metrô
  • Programa na Rádio Eldorado
  • Projeto para a Porto Seguro de caminhadas-diagnósticos
  • Caminhadas com população para medir índice de “caminhabilidade” em Jundiaí com Instituto Mobilidade Verde e prefeitura de Jundiaí
  • Blog no Mobilize
  • Projetos com Aromeiazero e Acupuntura Urbana
  • Entre outros

Como se sustenta financeiramente: A principal fonte de renda do movimento são os passeios pagos, mas a ideia é se transformar em ONG para vender projetos, poder receber doações e fazer convênios com secretarias municipais.

Dificuldades: Tamanho da cidade, relação com poder público e falta de consciência das pessoas sobre a importância da mobilidade a pé

Planos para o futuro:

  • Fazer mais pessoas andarem pela cidade
  • Criar formas divertidas e simples de aproximar as pessoas do espaço público
  • Apoiar e incentivar a abertura de vias como a Avenida Paulista aos domingos
  • Se aproximar mais do poder público, por exemplo promovendo caminhadas com Prefeito, Subprefeitos e secretários de áreas correlatas à mobilidade a pé.

 

Todo médico diz que andar faz bem para a saúde. A atividade previne doenças, melhora a pressão arterial e até queima calorias. Mas caminhar também traz benefícios para as cidades, em especial para as metrópoles. É que o transporte a pé aproxima as pessoas da cidade e tem um grande potencial de transformação urbana. Esse foi um dos aprendizados do SampaPé, movimento que quer melhorar a experiência do deslocamento a pé pela cidade. Desde 2012, o grupo faz passeios por São Paulo e incentiva a criação de políticas públicas a favor dos pedestres. A abertura da avenida Paulista para pessoas aos domingos, em 2015, é uma de suas grandes conquistas.

A primeira ação do projeto foi um passeio cultural pelo bairro do Bixiga, na região central da capital, em 2012. A ideia era bem simples: levar as pessoas para andar pelas ruas e mostrar atrativos e curiosidades do bairro. A caminhada terminava na Festa de Nossa Senhora Achiropita, uma comemoração tradicional que traz o melhor da culinária italiana para as ruas da região. “A festa já tem essa lógica de ocupação do espaço público, então tinha tudo a ver”, conta Letícia Sabino, que fundou o projeto com mais três amigos. Eles saíram, mas ela ficou e hoje conta com duas parceiras, Ana Carolina Nunes e Nara Rosetto, além de fazer mestrado na área de planejamento urbano na University College London (UCL), na Inglaterra.

Pernadas pela cidade

O início do movimento foi inspirado nas andanças de Letícia pela Cidade do México, onde fez intercâmbio por seis meses. Foi a primeira vez que ela deixou de lado o carro, seu principal meio de transporte em São Paulo. A mudança no ir e vir fez Letícia viver a Cidade do México com mais intensidade. “Por mais que usasse ônibus e metrô, a maior parte do deslocamento no meu bairro era a pé, e eu tive uma relação muito próxima com a cidade, me encantei por ela. Depois entendi que foi porque estava caminhando”.

Na volta para São Paulo, resolveu desistir de vez do carro. “Foi muito mágico. Eu estudava na Avenida Paulista e nunca tinha reparado na arquitetura dos prédios. Foi uma sensação diferente, de que agora eu conheço a minha cidade, e quero me empoderar, ver o que eu posso fazer pela minha cidade”, lembra. A vontade de passar essa experiência para mais pessoas foi a inspiração para criar o SampaPé. No começo eu não tinha consciência de que andar a pé era um meio de transporte. Mas um mês depois a gente entendeu que estava dentro de toda uma discussão de deslocamento em uma cidade tão grande”.

Os primeiros passeios tinham um viés mais cultural e os participantes não interagiam muito com os espaços durante o caminho. Letícia conta que eles só paravam e observaram os lugares apontados por ela. Para desconstruir essa postura passiva e abrir os olhos das pessoas para a cidade, o jeito foi inventar ferramentas simples e divertidas, como as molduras de papel coloridas que foram entregues em uma caminhada no seminário Cidades a Pé, em novembro de 2015.

Antes de bater perna pelo bairro de Pinheiros, onde aconteceu o evento, Letícia entregou dois tipos de molduras que deveriam ser usadas nos registros fotográficos. A vermelha sinalizaria problemas e obstáculos: lixo na rua, buraco na calçada, carros bloqueando a faixa de pedestres. Já a verde mostraria pontos positivos: um canteiro de flores, grafites nos muros, bancos para descansar. “Porque o caminhar não é uma coisa entre o ponto A e o ponto B, mas sim os infinitos pontos no meio do caminho que você vai percorrendo”, reflete.

Ruas para pessoas

“Você já interagiu com a sua cidade hoje? Você já experimentou seus caminhos, segredos e histórias?” O convite estampado na página oficial do SampaPé resume bem a proposta do grupo de explorar o espaço urbano com um olhar mais atento, tanto para os problemas quanto para as possíveis soluções. “A gente acredita que o caminhar torna as pessoas mais cidadãs”, diz Letícia. Transformar o espaço público em uma área de convivência desperta a consciência das pessoas para a necessidade de lugares melhores para se caminhar.

Essa mudança de mentalidade é a maior conquista do grupo. Antes de pensar na transformação efetiva dos espaços, o foco é conscientizar as pessoas sobre a importância de pensar na “caminhabilidade” da cidade. Um dos momentos mais importantes para o projeto foram as manifestações de junho de 2013 contra o aumento da passagem de metrô e ônibus, que trouxeram à tona a discussão sobre transporte, ocupação das ruas e o direito de ir e vir. “Foi quase uma chavinha que virou na cabeça das pessoas. Quando eu falava: ‘quero que as pessoas andem mais na rua’, diziam que eu era louca, que a cidade não estava planejada para caminhar”. A loucura passou a ser uma solução não só possível como necessária.

Outra grande vitória do SampaPé, compartilhada com a rede de mobilização Minha Sampa, foi a abertura da Avenida Paulista para pedestres aos domingos, decisão do prefeito Fernando Haddad que passou a valer em 18 de outubro de 2015. Três anos antes, o grupo tinha pedido autorização da CET para abrir a via para as pessoas no Dia Mundial Sem Carro, comemorado em 12 de setembro, sem sucesso. Na mesma época, outro grupo organizou a Praia na Paulista, também no Dia Mundial Sem Carro, com a mesma proposta de ocupar o espaço.

As negociações para abrir a avenida continuaram no ano seguinte, sem sucesso. “Então a gente foi invadindo, conseguiu fechar só uma parte da via, para fazer essa discussão de que a rua é um espaço publico também.” Em 2014, o SampaPé se uniu ao Minha Sampa e começou uma movimentação na internet para reunir mais pessoas e pressionar as autoridades pela abertura da Avenida Paulista. “A gente ia todo domingo e ficava na calçada mesmo. Fizemos reuniões com as secretarias de Transportes, de Esporte, de Turismo, mas ninguém comprou muito a ideia”.

O cenário só mudou com a inauguração da ciclovia na avenida, no dia 28 de junho de 2015. O evento fez com que a via fosse fechada para carros pela primeira vez, para atender à demanda de pedestres e ciclistas que estariam circulando por ali. Mais de 50 mil pessoas prestigiaram o primeiro dia da Paulista aberta para as pessoas, e quem passou em frente ao conhecido antigo casarão próximo à rua Ministro Rocha Azevedo viu e interagiu com uma série de atividades preparada pelo SampaPé e seus parceiros para a ocasião, como roda de leitura para crianças, intervenções com tinta spray e mesa de ping-pong do Ping Point. “Foi o gancho para as pessoas perceberem que precisavam de mais espaços de lazer. O apoio cresceu exponencialmente, de todo mundo e da própria Prefeitura”, lembra Letícia.

A decisão foi alvo de críticas e está sendo questionada pelo Ministério Público, que decidiu multar a Prefeitura pelo fechamento da via para carros. “Se tornou um tema muito polêmico, sendo que são três quilômetros de via numa cidade desse tamanho”, pondera Letícia, questionando o argumento de que é preciso manter a Avenida Paulista aberta para carros o tempo todo. Com ou sem polêmica, essa ação é um modelo a ser seguido pelo SampaPé, segundo sua fundadora. “A gente tem muito essa visão da abertura das vias, algo mega inspirado pelo movimento dos ciclistas em São Paulo. Eles começaram com a ciclovia de lazer, e daí surgiu uma infraestrutura adequada, uma discussão. A rua de lazer leva a essa nova consciência, que vai reivindicar uma melhor estrutura para caminhar na cidade todos os dias.”

Mais de três anos depois de dar os primeiros passos, o SampaPé contribui para melhorar a vida do pedestre paulistano e mostra que é possível e necessário andar pela cidade. Agora a iniciativa passa por um momento de reestruturação para descobrir formas de financiamento além dos passeios pagos, e se aproximar mais do poder público para investir em ações de grande impacto como a Paulista Aberta. “O alcance ainda é pequeno dentro da realidade da cidade. A gente precisa converter mais gente para esse movimento da melhoria urbana”, conclui Letícia.

 

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Uma resposta

  1. Eliete Sobral

    Caminhar é muito bom, apreciando uma cidade esquecida e tão linda, melhor ainda. Participo de corridas de rua, e quando o percurso é o centro velho de São Paulo, esquece tempo ou pace. Adoro correr no centro velho, a arquitetura é belíssima, cheia de cantos e no dia dia não se percebe, a beleza real do local.

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