SampaPé: o movimento por trás da abertura da avenida Paulista para as pessoas

Fernanda Carpegiani

Todo médico diz que andar faz bem para a saúde. A atividade previne doenças, melhora a pressão arterial e até queima calorias. Mas caminhar também traz benefícios para as cidades, em especial para as metrópoles. É que o transporte a pé aproxima as pessoas da cidade e tem um grande potencial de transformação urbana. Esse foi um dos aprendizados do SampaPé, movimento que quer melhorar a experiência do deslocamento a pé pela cidade. Desde 2012, o grupo faz passeios por São Paulo e incentiva a criação de políticas públicas a favor dos pedestres. A abertura da avenida Paulista para pessoas aos domingos, em 2015, é uma de suas grandes conquistas.

A primeira ação do projeto foi um passeio cultural pelo bairro do Bixiga, na região central da capital, em 2012. A ideia era bem simples: levar as pessoas para andar pelas ruas e mostrar atrativos e curiosidades do bairro. A caminhada terminava na Festa de Nossa Senhora Achiropita, uma comemoração tradicional que traz o melhor da culinária italiana para as ruas da região. “A festa já tem essa lógica de ocupação do espaço público, então tinha tudo a ver”, conta Letícia Sabino, que fundou o projeto com mais três amigos. Eles saíram, mas ela ficou e hoje conta com duas parceiras, Ana Carolina Nunes e Nara Rosetto, além de fazer mestrado na área de planejamento urbano na University College London (UCL), na Inglaterra.

Pernadas pela cidade

O início do movimento foi inspirado nas andanças de Letícia pela Cidade do México, onde fez intercâmbio por seis meses. Foi a primeira vez que ela deixou de lado o carro, seu principal meio de transporte em São Paulo. A mudança no ir e vir fez Letícia viver a Cidade do México com mais intensidade. “Por mais que usasse ônibus e metrô, a maior parte do deslocamento no meu bairro era a pé, e eu tive uma relação muito próxima com a cidade, me encantei por ela. Depois entendi que foi porque estava caminhando”.

Na volta para São Paulo, resolveu desistir de vez do carro. “Foi muito mágico. Eu estudava na Avenida Paulista e nunca tinha reparado na arquitetura dos prédios. Foi uma sensação diferente, de que agora eu conheço a minha cidade, e quero me empoderar, ver o que eu posso fazer pela minha cidade”, lembra. A vontade de passar essa experiência para mais pessoas foi a inspiração para criar o SampaPé. No começo eu não tinha consciência de que andar a pé era um meio de transporte. Mas um mês depois a gente entendeu que estava dentro de toda uma discussão de deslocamento em uma cidade tão grande”.

Os primeiros passeios tinham um viés mais cultural e os participantes não interagiam muito com os espaços durante o caminho. Letícia conta que eles só paravam e observaram os lugares apontados por ela. Para desconstruir essa postura passiva e abrir os olhos das pessoas para a cidade, o jeito foi inventar ferramentas simples e divertidas, como as molduras de papel coloridas que foram entregues em uma caminhada no seminário Cidades a Pé, em novembro de 2015.

Veja como foi a caminhada do SampaPé em Pinheiros:

Antes de bater perna pelo bairro de Pinheiros, onde aconteceu o evento, Letícia entregou dois tipos de molduras que deveriam ser usadas nos registros fotográficos. A vermelha sinalizaria problemas e obstáculos: lixo na rua, buraco na calçada, carros bloqueando a faixa de pedestres. Já a verde mostraria pontos positivos: um canteiro de flores, grafites nos muros, bancos para descansar. “Porque o caminhar não é uma coisa entre o ponto A e o ponto B, mas sim os infinitos pontos no meio do caminho que você vai percorrendo”, reflete.

Ruas para pessoas

“Você já interagiu com a sua cidade hoje? Você já experimentou seus caminhos, segredos e histórias?” O convite estampado na página oficial do SampaPé resume bem a proposta do grupo de explorar o espaço urbano com um olhar mais atento, tanto para os problemas quanto para as possíveis soluções. “A gente acredita que o caminhar torna as pessoas mais cidadãs”, diz Letícia. Transformar o espaço público em uma área de convivência desperta a consciência das pessoas para a necessidade de lugares melhores para se caminhar.

Essa mudança de mentalidade é a maior conquista do grupo. Antes de pensar na transformação efetiva dos espaços, o foco é conscientizar as pessoas sobre a importância de pensar na “caminhabilidade” da cidade. Um dos momentos mais importantes para o projeto foram as manifestações de junho de 2013 contra o aumento da passagem de metrô e ônibus, que trouxeram à tona a discussão sobre transporte, ocupação das ruas e o direito de ir e vir. “Foi quase uma chavinha que virou na cabeça das pessoas. Quando eu falava: ‘quero que as pessoas andem mais na rua’, diziam que eu era louca, que a cidade não estava planejada para caminhar”. A loucura passou a ser uma solução não só possível como necessária.

Paulista Aberta

Outra grande vitória do SampaPé foi a abertura da Avenida Paulista para pedestres aos domingos, realizada junto com a rede de mobilização Minha Sampa. A decisão foi do prefeito Fernando Haddad e passou a valer em 18 de outubro de 2015. Três anos antes, o grupo tinha pedido autorização da CET para abrir a via para pessoas no Dia Mundial Sem Carro, em 12 de setembro, sem sucesso. Na mesma época, outro grupo organizou a Praia na Paulista, também no Dia Mundial Sem Carro, com uma proposta parecida.

As negociações continuaram no ano seguinte, sem sucesso. “Então a gente foi invadindo. Conseguiu fechar só uma parte da via, para fazer essa discussão de que a rua é um espaço publico também.” Em 2014, o SampaPé se uniu ao Minha Sampa e começou uma movimentação na internet para reunir mais pessoas e pressionar as autoridades pela abertura da Avenida Paulista. “A gente ia todo domingo e ficava na calçada mesmo. Fizemos reuniões com as secretarias de Transportes, de Esporte, de Turismo, mas ninguém comprou a ideia”.

O cenário só mudou com a inauguração da ciclovia na avenida, em 28 de junho de 2015. O evento fechou a via para carros pela primeira vez, para atender à demanda de pedestres e ciclistas que circulariam por ali. Mais de 50 mil pessoas prestigiaram o primeiro dia da Paulista aberta para pessoas. E quem passou em frente ao antigo casarão próximo à rua Ministro Rocha Azevedo viu e interagiu com uma série de atividades preparada pelo SampaPé e seus parceiros. Teve roda de leitura para crianças, intervenções com tinta spray e mesa de ping-pong do Ping Point. “Foi o gancho para as pessoas perceberem que precisavam de mais espaços de lazer. O apoio cresceu exponencialmente, de todo mundo e da própria Prefeitura”, lembra Letícia.

Desafios e polêmicas

A decisão foi alvo de críticas e está sendo questionada pelo Ministério Público, que decidiu multar a Prefeitura pelo fechamento da via para carros. “Se tornou um tema muito polêmico, sendo que são três quilômetros de via numa cidade desse tamanho”, pondera Letícia, questionando o argumento de que é preciso manter a Avenida Paulista aberta para carros o tempo todo. Com ou sem polêmica, essa ação é um modelo a ser seguido pelo SampaPé, segundo sua fundadora. “A gente tem muito essa visão da abertura das vias, algo mega inspirado pelo movimento dos ciclistas em São Paulo. Eles começaram com a ciclovia de lazer, e daí surgiu uma infraestrutura adequada, uma discussão. A rua de lazer leva a essa nova consciência, que vai reivindicar uma melhor estrutura para caminhar na cidade todos os dias.”

Mais de três anos depois de dar os primeiros passos, o SampaPé contribui para melhorar a vida do pedestre paulistano e mostra que é possível e necessário andar pela cidade. Agora a iniciativa passa por um momento de reestruturação para descobrir formas de financiamento além dos passeios pagos, e se aproximar mais do poder público para investir em ações de grande impacto como a Paulista Aberta. “O alcance ainda é pequeno dentro da realidade da cidade. A gente precisa converter mais gente para esse movimento da melhoria urbana”, conclui Letícia.


 FAÇA VOCÊ MESMO!

Quer fazer parte das ações do SampaPé ou criar uma iniciativa semelhante em sua comunidade? Essas informações vão te dar uma ideia mais concreta de como o projeto se estrutura

Como apoiar ou fazer parte?

Primeiramente andando. Você também pode curtir a página do SampaPé no Facebook, participar dos passeios e levar sua intervenção urbana para um evento do projeto

Pessoas envolvidas:

No início eram quatro pessoas. Hoje, Letícia toca o projeto com duas parceiras, Ana Carolina Nunes e Nara Rosetto

Quem faz o quê:

Todo mundo faz de tudo um pouco, mas no geral Letícia coordena, faz passeios, cuida da criação e interlocução com o poder público e das parcerias. Ana tem foco em interlocução com poder público e comunicação. Nara em parcerias e projetos artístico-culturais

Há quanto tempo existe:

Desde agosto de 2012

Materiais utilizados:

Papelaria, tintas, mapas, e principalmente os pés

Metodologias:

Combinação de diferentes análises de “caminhabilidade”, avaliação de espaços públicos e observação urbana

Inspirações:

  • Liga Peatonal, no México
  • Passeios a pé pelo mundo (walking tours)
  • Janes Walk
  • Walk 21
  • Everybody walks
  • PPS

Locais de intervenção:

O grupo fez dois grandes eventos na praça do Pôr do Sol (Praça Coronel Custódio Fernandes Pinheiro) e praça da República, e já fez passeios nas seguintes regiões: Bixiga, Higienópolis, Ipiranga, Vila Clementino, Vila Madalena, Água Branca, Rua Augusta, Avenida Paulista, República e Penha

Serviços contratados:

Contador. O resto é feito no modelo DIY (Do It Yourself, ou faça você mesmo, em português)

Passo a passo:

Para organizar um passeio a pé

  • Escolha do local, que é feita de duas formas: por votação online ou por conta de um evento ou data importante relacionada ao lugar, como por exemplo a Festa da Achiropita, no bairro do Bixiga, que foi o primeiro passeio da iniciativa
  • Faça uma pesquisa online sobre personagens e histórico do bairro, para poder explorar questões materiais e visuais da região
  • Realize então uma pesquisa in loco, com caminhadas pelo local para conversar com os chamados atores locais, que são funcionários de lojas (antigas e novas), moradores, agentes de museus e instituições culturais, pessoas na rua
  • Crie um mapa com os espaços e as histórias
  • Elabore um roteiro interessante e consistente, misturando personagens importantes para a formação e ocupação do bairro com personagens atuais que recriam a imagem e história dos bairros
  • Planeje o passeio: a média de cada um é de 15 pontos, 5 km percorridos e 3 horas de duração

Proposta:

Melhorar a experiência do deslocamento a pé na cidade promovendo passeios e incentivando a criação de políticas públicas a favor dos pedestres.

Parcerias:

  • Paulista Aberta com o Minha Sampa
  • Seminário Cidades a Pé com ANTP, Banco Mundial, Rede OCARA, Corrida Amiga e Pé de Igualdade
  • Atividades com apoio da Cidadeapé
  • Caminhando com o Tatto com Bike é Legal e Página da Raquel
  • Mapa a pé entre as estações do Metrô
  • Programa na Rádio Eldorado
  • Projeto para a Porto Seguro de caminhadas-diagnósticos
  • Caminhadas com população para medir índice de “caminhabilidade” em Jundiaí com Instituto Mobilidade Verde e prefeitura de Jundiaí
  • Blog no Mobilize
  • Projetos com Aromeiazero e Acupuntura Urbana
  • Entre outros

Como se sustenta financeiramente:

A principal fonte de renda do movimento são os passeios pagos. Mas a ideia é se transformar em ONG para vender projetos, poder receber doações e fazer convênios com secretarias municipais.

Dificuldades:

Tamanho da cidade, relação com poder público e falta de consciência das pessoas sobre a importância da mobilidade a pé

Planos para o futuro:

  • Fazer mais pessoas andarem pela cidade
  • Criar formas divertidas e simples de aproximar as pessoas do espaço público
  • Apoiar e incentivar a abertura de vias como a Avenida Paulista aos domingos
  • Se aproximar mais do poder público, por exemplo promovendo caminhadas com Prefeito, Subprefeitos e secretários de áreas correlatas à mobilidade a pé.
Comentários
  • Eliete Sobral
    Responder

    Caminhar é muito bom, apreciando uma cidade esquecida e tão linda, melhor ainda. Participo de corridas de rua, e quando o percurso é o centro velho de São Paulo, esquece tempo ou pace. Adoro correr no centro velho, a arquitetura é belíssima, cheia de cantos e no dia dia não se percebe, a beleza real do local.

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