Shoot the Shit: como desencadear microrrevoluções nas ruas

FAÇA VOCÊ MESMO!

Quer fazer parte das ações da Shoot the Shit ou criar uma iniciativa semelhante em sua comunidade? Essas informações vão te dar uma ideia mais concreta de como o projeto se estrutura

Como apoiar ou fazer parte? fazendo parte da Múrmura, a rede de pessoas que apoiam, ajudam a criar e participam das ações da Shoot The Shit

Pessoas envolvidas: no início 3, hoje 6

Quem faz o quê:
Braga: Visão Criativa
Gab: Guardião de Propósito
Artur: Chefe de Relacionamento
Paulista: Designer Social
Eric: Empreendedor de Sonhos
Leo: Mestre de Obras

Há quanto tempo existe: desde julho de 2010

Materiais utilizados: giz, adesivo, spray, estêncil, taco de golfe, bola de golfe, tinta, fita, rolo, notebooks, câmera, celular etc.

Metodologias: brainstorming

Inspirações: marketing de guerrilha e artistas de rua

Locais de intervenção: Porto Alegre e Rio de Janeiro

Serviços contratados: desenvolvedor de site

Passo a passo:
Diagnóstico do problema
Brainstorming
Produção das ações
Ativação da rede
Execução das iniciativas
Divulgação

Proposta: criar ações simples para fazer com que pessoas se engajem na ocupação e transformação de espaços públicos

Parcerias: Colégio Farroupilha, Cosmonauta, Zebu Mídias Sustentáveis, Biz.u, Pata de elefante, entre outros

Como se sustenta financeiramente: projetos criativos para marcas, apoio de pessoas físicas através da rede Múrmura

Dificuldades: entender o limite entre o que pode e não pode fazer nas intervenções em espaços públicos

Planos para o futuro: criar mais ações que engajem as pessoas, expandir as iniciativas para outras cidades e trabalhar com mais marcas

 

 

Pelo correio, caixas-surpresa chegam a vários pontos do país com materiais para criar pequenas intervenções urbanas. Algo para “tirar a bunda da cadeira e fazer uma microrrevolução”, como define Luciano Braga, um dos seis sócios da Shoot the Shit, um coletivo que atua em Porto Alegre e no Rio de Janeiro. As chamadas action box podem conter giz, tinta, estêncil, enfim, o que as mentes criativas dos publicitários inventarem para inspirar cada um a transformar um pouco o seu bairro para melhor. Essa é apenas uma das diversas ações que o grupo bolou unindo criatividade, design e ferramentas para tirar as pessoas do estado inerte. O objetivo da equipe é dar um “empurrãozinho” para que cada um parta para ação e ajude a melhorar a cidade onde mora.

As caixas com microrrevoluções urbanas são enviadas para quem participa da rede Múrmura, um grupo de mais de 100 apoiadores mensais (chamados de “patronos”) que compõe um dos pilares de sustentação do coletivo. Outra frente é de educação, com palestras, eventos e oficinas. Uma terceira, que faz com que o grupo se sustente, desenvolve ações em parceria com marcas. E o quarto pilar remete, na verdade, a como tudo começou: ações criativas nas ruas.

A mais conhecida é a Que Ônibus Passa Aqui?, que distribuiu adesivos para colar em pontos de ônibus – ficava por conta dos usuários preencher as linhas que paravam ali. O projeto foi eleito pelo jornal britânico The Guardian a melhor ideia para cidades no desafio The World Cities Day Challenge. Financiado por uma campanha de crowdfunding, o projeto arrecadou 351% da sua meta e levou o grupo a lançar uma versão nacional, que bateu 433% o objetivo – e ainda hoje, quem quiser pode entrar no site e baixar a arte do adesivo e imprimi-lo sem custo.

As ações da Shoot the Shit em espaços públicos têm algo em comum: todas são bem simples, para facilitar a participação de um grande número de pessoas, e todas chamam a atenção, de uma maneira criativa e lúdica, para algo que está faltando no uso daquele espaço (como placas indicativas nos pontos de ônibus).

Clique para conhecer outras ações da Shoot the Shit:

Lixeira aqui: usando o ícone de localização do Google Maps, a Shoot the Shit e seus patronos espalharam sinalizações em postes sobre lixeiras do Rio e de Porto Alegre, para melhorar a visibilidade dos cestos e reduzir a quantidade de lixo jogada nas ruas – especialmente durante grandes eventos, como o Carnaval. A ideia partiu do desafio “Como você deixa sua rua mais limpa?”, lançado na rede Múrmura. Os patronos enviaram suas sugestões e o projeto mais simples, criativo e inspirador foi colocado em prática.

A Natureza Recarrega: um pedaço de verde montado em um carrinho móvel que ainda serve de banco e recarregador de celular.

Se Essa Rua Fosse Minha: em Porto Alegre, às vezes faltam sinalizações com os nomes das ruas. Em parceria com uma escola particular da cidade, foi feita uma atividade em que crianças da 3ª série do ensino fundamental criaram suas placas para identificar as ruas do bairro Cidade Baixa.

Não Pise Na Lava: na tentativa de deixar um espaço público mais colorido, divertido e interativo, a Shoot the Shit criou, com apenas um balde de tinta, um jogo em uma escada do bairro Jardim Botânico. A ideia é que só se pode pisar onde não tem lava.

Se dinheiro não fosse um objetivo: diversos adesivos foram colados em um muro, questionando pessoas que passavam a preencher o que elas seriam caso dinheiro não fosse tão importante na vida adulta.

O que te faz feliz?: inspirados no jogo de caça-palavras, o coletivo criou um “caça-felicidade” em um tapume de muro, para fazer os pedestres da rua Barão do Amazonas, na capital gaúcha, pararem, buscarem e marcarem com giz palavras que refletem coisas que trazem felicidade.

Mexa-se: o grupo colocou um aparelho de ginástica ao lado de um ponto de ônibus, com a placa provocativa “mexa-se”. Assista ao vídeo.

Paraíso do golfe: a equipe da Shoot the Shit fez das ruas de Porto Alegre um grande campo de golfe, brincando com a quantidade de buracos no asfalto. Com roupas de golpe, tacos, bolas e uma bandeira do jogo, eles filmaram a “partida” para mostrar o estado precário das ruas da cidade. O vídeo viralizou, e como resultado a prefeitura consertou todos os buracos que apareciam. Assista.

Poa precisa: em um tapume de obra, o coletivo criou um espaço para que as pessoas preenchessem o que faltava em Porto Alegre. Depois, a prefeitura convidou a Shoot the Shit para replicar a ação em outros bairros da cidade.

Salve uma vida, apague seu cigarro: o primeiro projeto do grupo, feito no Dia Nacional do Combate ao Fumo de 2010, consistiu em 100 adesivos colados em pequenos postes com o nome da ação em forma de apelo, e uma pintura para que os postes se parecessem com cigarros de ponta cabeça.

Tá com pressa?: feita em uma passarela do campus da PUC-RS, essa intervenção criou, com adesivos, “faixas de rolagem” para pedestres. À direita, convida quem está tranquilo para andar na velocidade que quiser, deixando a esquerda livre para quem tem pressa. Segundo o coletivo, poucos minutos depois da adesivagem do chão, já era possível ver as pessoas andando de acordo com a sinalização.

Cinema na Anita: um evento que reuniu mais de 300 pessoas na rua para discutir mobilidade urbana. O ponto escolhido foi uma obra polêmica de Porto Alegre, uma espécie de trincheira feita para facilitar o tráfego motorizado que despertou a indignação da comunidade local. Os participantes deixaram mensagens no asfalto.

O passo da teoria para a prática, para a Shoot the Shit, faz toda a diferença. “O mundo precisa hoje de pessoas que façam, porque ideias tem muitas. Todo mundo tem uma ideia legal que pode ajudar o mundo, mas é uma minoria que consegue realmente parar e fazer algo”, afirma Luciano. Isso porque as pessoas se inspiram e aprendem observando as ações. A prática é muito mais efetiva em levar à ação do que o discurso – o pioneirismo é para poucos, e não deve ser exigido de todos: é natural do ser humano gostar de trilhar caminhos conhecidos e se juntar a quem já está está fazendo algo.

 

“Vandalismo bem-intencionado”: até onde pode?

Outro equilíbrio que o coletivo teve que encontrar, como muitos que trabalham com intervenções urbanas, foi o limite entre a ação de responsabilidade do poder público e a tomada de iniciativa como cidadãos. Muitas vezes esse caminho do meio leva o grupo a dilemas. “A gente não quer pedir autorização, mas também se não pedir pode dar problema. Então às vezes a gente não faz uma ação porque não sabe se pode ou não”, explica Luciano.

É um desafio, mas eles acreditam que a diferença está em quebrar as regras para propor a construção de algo, e não a destruição. “A gente atua numa esfera muito subjetiva, de fazer um bem, mas através de algo que pode ser considerado vandalismo. Não pode colar um adesivo numa parada de ônibus, na verdade; é um vandalismo, mas com o propósito da criação, a gente acha que pode.”

Logo após a primeira iniciativa, a Shoot the Shit foi alvo de uma matéria de um grande jornal de Porto Alegre, que caracterizou a ação como vandalismo. Luciano conta que uma legião de pessoas os defenderam, até que a própria prefeitura acabou adotando o projeto. “Isso é um problema, mas é um problema divertido até: encontrar formas de fazer uma ação sem que ela seja um vandalismo descarado, sem que ela destrua algo, crie um problema.”

Começo despretensioso

A estratégia dos sócios para chegar a esses “vandalismos construtivos” é conversar muito. Shoot the Shit é uma expressão em inglês que significa jogar conversa fora, bater papo. Ela remete ao que era o coletivo no começo, e ao que eles querem preservar com o crescimento: um grupo de amigos que se reúne para papear e, a partir disso, pensa em ações criativas e transformadoras.

Hoje, os seis sócios da Shoot the Shit têm dedicação exclusiva às ações do coletivo. Elaborar um plano de negócios que fizesse sentido para eles, no entanto, levou algum tempo. Os integrantes não queriam funcionar como uma agência publicitária tradicional – modelo justamente do qual fugiam quando criaram o coletivo – nem como ONG. O meio termo foi definir-se como estúdio criativo, que parte de um propósito comum para fazer ações independentes e trabalhar com empresas.

E assim tem funcionado bem: novas ações, reuniões com os patronos da rede Múrmura, palestras, workshops, elaboração e envio das action box. Daqui para a frente, a ambição do coletivo é fazer parte da mudança do mercado de comunicação, atuando junto a empresas para gerar valor e impactos positivos. Já nas ruas, o objetivo continua sendo simples e complexo ao mesmo tempo: dar aquele “empurrãozinho” que falta para trazer as pessoas do mundo das ideias para o mundo da ação.

 

 

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