Três debates sobre vida urbana que vimos no Hack Town 2018

Fernanda Carpegiani

A gente tenta, mas não consegue falar do Hack Town sem um sorrisão no rosto. E nem sem emendar o convite quase suplicante: “sério, você precisa ir no ano que vem!”. O evento rola todo ano no feriado de 7 de setembro, na simpática Santa Rita do Sapucaí, no Sul de Minas Gerais. É a terceira vez que formigamos por lá, a segunda que somos palestrantes, e sempre saímos totalmente transformadas. Inclusive, desde a nossa primeira participação, notamos um aumento de palestras sobre a vida urbana e a nossa relação com a cidade.

Visões sobre vida urbana

A gente vê o Hack Town como um festival de inovação, criatividade e debates super importantes para desenhar caminhos e entender nossa realidade tão complexa. Os temas discutidos passam por tecnologia, gastronomia, cidadania, consciência, música. Então tem para todos os gostos mesmo! 

A fala do Formiga-me, por exemplo, foi sobre pessoas e grupos que transformam a cidade com pequenas ações. Por isso, contamos e mostramos várias histórias inspiradoras de ações em espaços públicos. Falamos de iniciativas que levam arte para as ruas, das caminhadas do SampaPé, das expedições por rios invisíveis do Rios e Ruas e de roças urbanas como a Horta das Corujas, entre outras ideias. Também contamos a nossa experiência produzindo mapas afetivos colaborativos.

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Óia nóis arrasani em MG! Essa é a segunda vez que fazemos uma palestra no @hacktownsrs , um evento incrível organizado por jovens de Santa Rita do Sapucaí que toma toda a cidade e seus espaços para falar de inovação. Nessa edição, vamos mostrar váaaarias iniciativas independentes que transformam cidades. > Programação do Hack Town 2018: https://hacktown.com.br/programacao/ > Nossa palestra de 2017: http://formiga.me/portfolio-posts/palestra-no-hack-town/ > Post que fizemos sobre o que rolou na última edição: http://formiga.me/hack-town-2017-cidades/ > Entrevista que fizemos com o C.H., co-fundador do Hack Town: http://formiga.me/hack-town-um-evento-espalhado-por-toda-a-cidade/

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Da mesma forma, outros palestrantes do Hack Town também levantaram discussões mega interessantes sobre a vida urbana. O Caio Vassão explicou o que é a cidade distribuída, enquanto o seu xará Caio Esteves trouxe o conceito da cidade antifrágil. Já o Márcio Black discutiu a sincronicidade da ocupação urbana pelas pessoas.

Quer saber um pouco mais sobre cada um desses assuntos? Então lá vai!

Cidade Distribuída: o centro da nova cidade está em todos os lugares

A gente já conhecia e curtia as pirações do Caio Vassão sobre como a cidade se organiza hoje em dia. Para o urbanista, os espaços urbanos deixaram de ter um centro e passaram a ser uma grande rede distribuída. A base das suas pesquisas é o conceito de metadesign, que no urbanismo é um processo em que a comunidade se auto-projeta, ou seja, cria as condições da sua própria existência.

Em um determinado momento da palestra, ele perguntou quem da plateia era arquiteto urbanista. E disparou: “Vocês têm uma deformação, como eu, porque acreditam que é o arquiteto urbanista que cria a cidade, sendo que a cidade é um evento emergente. O quanto a gente consegue projetar da cidade é uma parcela muito pequena. Em geral a cidade tem mais problemas quando ela é muito planejada.”

A partir dessa ideia, o Caio derrubou a ilusão do controle urbano dizendo que cidades raramente morrem. Isso acontece porque, mais do que territórios ou aglomerados de construções, cidades são feitas de e por pessoas. Daí vem a ideia de cidade distribuída a partir da mobilização social em rede.

O que aprendemos sobre cidades no Hack Town 2017

Cidade Antifrágil

Ficamos intrigadas e curiosas com o título dessa palestra. Uma parte da descrição que chamou nossa atenção foi a seguinte: “Diferente da resiliência, que volta ao seu estado natural após um evento crítico, a antifragilidade se beneficia, aprende, evolui.” Assim como seu xará, o Caio Esteves também é urbanista e trouxe uma bagagem teórica tanto sobre a origem e o significado da cidade, quanto sobre a importância da identidade e do engajamento para discutir o que é a cidade do futuro, por assim dizer.

Ele falou sobre o conceito de lugar a partir da geografia humanista. De acordo com essa corrente, um lugar é um espaço dotado de significado pelo homem. Na mesma direção, Caio falou sobre a ideia da psicogeografia de que a cidade, mais do que um território físico, é uma construção simbólica. E essa construção, claro, é feita pelas pessoas. Por isso, um edifício ou monumento só tem valor real a partir da importância que as pessoas dão para ele.

Essa inteligência da comunidade é super relevante para a criação do que o Caio chamou de cidades antifrágeis. Ou seja, a valorização e a participação das pessoas confere força, sentido e continuidade para os espaços urbanos. É aí que entra o placebranding, um conceito bem novo que busca entender, mapear, identificar vocações e identidades para promover e fortalecer os lugares da cidade. “O processo de placebranding é sempre colaborativo, multisdisciplinar e multihierárquico. A gente sempre tá falando de gente, de cidade para pessoas. A partir da perspectiva do ser humano e para o ser humano”, explicou.

Sincronicidade: as cidades que queremos

A gente simplesmente queria abraçar o Marcio Black depois da linda palestra sobre o reflexo das desigualdades sociais no dia a dia da cidade. Trabalhando na Virada Cultural, em São Paulo, o cientista político e produtor cultural colocou em prática um experimento para mostrar que grandes eventos não são necessariamente sinônimo de violência: acabar com mega palcos e shows e introduzir mais coletivos. Isso porque a simples mudança destrói a sensação de hierarquia do palco com quem está embaixo. As relações ficam mais horizontais e participativas. E nisso os coletivos são especialistas!

Black falou também o que sempre insistimos aqui no Formiga-me: é preciso considerar os usos preexistentes dos espaços quando fazemos uma atividade ou intervenção ali. As dinâmicas que já rolam não podem ser ignoradas, porque têm impacto direto no resultado do que será feito ali. E não importa se a carapaça for chiquérrima.

O palestrante falou ainda sobre cultura da periferia, e como deve ser respeitada pelo que é. Sem ser diminuída nem glamourizada. Quem ocupa esses espaços fora do centro, defende Marcio, precisa ter condições de circular e “acessar a cidade onde ela está acontecendo”. Um direito que, não-oficialmente, é negado à população que mora na periferia.

Em uma conversa com a plateia no fim da sua fala, Marcio comparou a política engravatada ao trabalho de formiguinha dos coletivos. E analisou: macro e micropolítica têm tamanho abismo entre si que uma não entende mais a outra.

Deu pra entender um pouco do nosso entusiamo pelo Hack Town? É muita conversa boa para um feriado só. Tanto que os temas vão reverberar muito por aqui ainda. Então a gente se vê na edição do ano que vem!

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