O que aprendi sobre São Paulo ao sentar no centro com um banquinho e um papel

Tenho uma irmã adolescente que no último ano descobriu um grande amor pela arte. Ela passaria alguns dias na minha casa em São Paulo (mora com meu pai e sua mãe em Goiânia) e decidi levá-la para ter algumas experiências artísticas por aqui. Uma delas surgiu por recomendação de evento do Facebook: o encontro de um grupo chamado “Urban Sketchers”. O nome me parecia bem autoexplicativo (algo como “esboçadores” urbanos) e logo descobri que era uma comunidade totalmente aberta a quem desejasse chegar com seu caderno e desenhar/pintar a cidade. No sábado nos encontramos com os “sketchers” no centro de São Paulo. Logo mais nos espalhamos na praça Antônio Prado, entre o prédio do Banespão e a Rua São Bento, e partimos para a atividade. Foi tudo bem livre, sem tema, sem instruções ou restrições. Eu e minha irmã nos sentamos em frente ao coreto da praça e começamos a desenhar.

Olhei no relógio. “Nossa, temos ainda 3 horas. É bastante.” Haveria tempo para mais de um desenho? Me sentiria entediada desenhando por três horas? Chacoalho a ansiedade precoce de quem não tem o costume de contemplar, e me permito pensar – antes mesmo de começar – que vai ficar tudo bem se eu quiser ir embora mais cedo.

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Quando a barreira dos primeiros 15 minutos é superada, parece que o tempo muda. Não estou mais no ritmo de chegada, de quem passa rumo a um objetivo, de quem entra e sai dos comércios. Não estou mais no mesmo estado de espírito de uma hora antes, me arrumando para mais um compromisso, com toda a movimentação e ansiedade que um ponto de encontro com data e local marcados provocam. Ao romper essa barreira temporal, percebo sem intenção onde estão os buracos da calçada próximos do meu pé. Percebo o trajeto do sol nas paredes. Onde se forma um corredor de vento. Percebo o timbre da voz de um pastor pregando ali perto. Vejo toda a preparação de um mágico ao montar seu espetáculo para atrair quem passa pela rua. Entendo que as três horas estão passando rápido, tão rápido que nem mesmo vou conseguir terminar meu desenho. Ao mesmo tempo, tudo parece mais lento através dos meus olhos. Muda meu estado de percepção e passo a olhar para a cidade de outra forma.

Chega a ser estranho como uma atitude tão simples quanto abrir um banquinho e acomodar-se com um caderno na mão pode ser tão transformadora. O primeiro ato é o de adotar a posição de observador. O segundo é o de registrar aquilo que se vê. O porteiro do prédio ao lado se aproxima e olha para o meu caderno. “E se aparecer uma pessoa na janela e depois sumir? Você desenha ela?” Sou pega de surpresa pela indagação e conversamos rapidamente. Damos risada juntos. Percebo que aquela minha atitude de sentar com o banquinho e desenhar um edifício despertou no outro, com quem eu possivelmente nunca teria contato de outra forma, um diálogo sobre um espaço que compartilhamos, em geral, em silêncio. A cena se repete comigo e com os outros participantes do grupo. Pessoas se aproximam e observam, quase sempre sem dizer nada, os movimentos sobre o papel.

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Retomo a questão do senhor que me abordou: como fazer um registro de algo que está sempre em movimento, sempre se renovando? Nesse processo de tentar fixar um espaço e tempo no papel, é engraçado como o desenho de observação desarma a gente. Racionalmente conto cinco janelas uma ao lado da outra. E quase começo a desenhar uma a uma, iguaizinhas, de acordo com as imagens de janela que meu cérebro prontamente me transmite. Mas espera aí. A da direita tem uma sombra que a da esquerda não tem. Opa! O espaço entre as janelas não é simétrico. O vidro não está visível naquelas ali, tenho que mudar a perspectiva. Nó na cabeça. Tudo aquilo que meu cérebro buscou automatizar de maneira eficiente, me oferecendo respostas visuais prontas para me poupar tempo, acaba se tornando um processo longo e demorado. Isso porque na realidade as coisas são diferentes do que minha imaginação tentou prever. E o que isso tem a ver com a forma como a gente se coloca na cidade? Tudo! Porque podemos caminhar por aí achando que sabemos o que existe depois daquela esquina, ou que conhecemos o bairro X ou a rua Y. Mas se realmente pararmos para observar e desarmarmos o nosso automatismo cotidiano, a cidade vai revelar sempre novos detalhes que você não havia percebido antes. Toda vez que passar pelo mesmo espaço, portanto, ele terá algo de diferente para oferecer.

Acabou o tempo. Mal terminei de desenhar o topo do Empire State paulistano. Mas não importa. Olho para os cadernos dos outros “sketchers” e vejo a cidade por outros ângulos, cores, pinceladas, e técnicas. Paramos eu e minha irmã para comprar um doce, e quando saímos da confeitaria portuguesa às 13h o grupo já se dispersou. Pegamos a rua São Bento e voltamos ao ritmo de quem tem fome, de quem vai a algum lugar e depois a algum outro, de quem anda consultando o relógio. Mas o desenho ainda está lá no papel, para me lembrar da experiência que também ficou registrada. E eu espero poder buscá-la ali sempre que sentir que já saquei a cidade, que já conheço um caminho ou que São Paulo não me oferece novidades.

* Todas as fotos retratam “sketchers” do grupo e foram tiradas por mim na ocasião.

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Sobre o autor

Carmen Guerreiro

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Jornalista, escritora, paulistana, empreendedora e apaixonada por cidades. Gosta de: viajar, escrever, ouvir histórias, fotografar, aprender, ouvir música, conversar, andar pela cidade, dançar, cozinhar, comer, descobrir, pesquisar, observar. Não gosta de: egocentrismo, extremismo e injustiça (e maionese industrializada)

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